O anseio por identificação

A pessoa fica se perguntando por que este anseio, desejo, por identificação existe. Pode-se compreender a identificação com as próprias necessidades físicas – as coisas necessárias, roupas, alimento, abrigo e assim por diante. Mas interiormente, dentro da pele por assim dizer, tentamos nos identificar com o passado, com a tradição, com alguma imagem romântica fantasiosa, um símbolo muito apreciado. E certamente nesta identificação existe um sentido de segurança, proteção, um sentido de ser possuído e de possuir. Isto dá grande conforto. A pessoa sente conforto, segurança em qualquer forma de ilusão. E o homem aparentemente precisa de muitas ilusões. Na distância havia o piado de uma coruja e a resposta vinda do outro lado do vale. É madrugada ainda. O ruído do dia não começou e tudo está quieto. Há alguma coisa estranha e sagrada onde o sol nasce. Há uma prece, um canto à alvorada, àquele estranha luz calma. Nessa manhã cedo, a luz estava reduzida, não havia brisa e toda a vegetação, as árvores, os arbustos, estavam quietos, parados, esperando. Esperando o sol nascer. E talvez o sol não surgisse por meia hora ou mais, e a alvorada lentamente cobria a terra com uma estranha quietude. Gradualmente, lentamente, a montanha mais alta ficava brilhante e o sol a tocava, dourado, claro, e a neve era pura, intocada pela luz do dia. Conforme você subiu, deixando os caminhos da pequena vila para trás, o ruído da terra, os grilos, as cordonizes e outros pássaros começaram sua canção matinal, seu canto, sua rica adoração do dia. E conforme o sol nasceu você era parte daquela luz e deixou para trás tudo que o pensamento acumulou. Você esqueceu completamente de si mesmo. A psique estava vazia de suas lutas e dores. E conforme caminhava e subia, não havia sentido de separação, nem mesmo o sentido de ser um ser humano.

Krishnamurti to Himself Ojai California Tuesday 10th March, 1983